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Duplo terremoto causa destruição na Venezuela

Duplo terremoto causa destruição na Venezuela

Terremotos deixam dezenas de feridos e desaparecidos na Venezuela

Dois terremotos violentos atingiram o norte da Venezuela em menos de um minuto, deixando ao menos 900 mortos, milhares de feridos e um rastro de destruição. Especialistas afirmam que a região já acumulava tensão sísmica havia mais de 200 anos, transformando o desastre em uma tragédia que muitos cientistas temiam há décadas.

Venezuela é sacudida por dois terremotos devastadores em menos de um minuto

Abalos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o norte do país, deixaram ao menos 900 mortos, milhares de feridos e reacenderam o alerta sobre falhas geológicas monitoradas há anos por cientistas.

O que parecia ser apenas mais uma noite comum em Caracas se transformou em segundos de pânico. O geólogo Franck Audemard havia acabado de se acomodar em casa para assistir à partida entre Escócia e Brasil pela Copa do Mundo quando, às 18h04 no horário local, a terra começou a tremer.

Primeiro vieram dois solavancos repentinos. Depois, as paredes começaram a balançar com força. Audemard, professor da Universidade Central da Venezuela e ex-integrante da Fundação Venezuelana de Pesquisas Sismológicas, percebeu imediatamente que não se tratava de um tremor comum.

“Senti dois golpes súbitos, como se alguém estivesse tentando me levantar da cama”, relatou Audemard.

Sem perder tempo, ele calçou os chinelos e gritou para que sua família deixasse a casa. Do lado de fora, a Venezuela começava a entender a dimensão do desastre.

Segundo os dados citados no relato original, o terremoto foi, na verdade, uma sequência de dois grandes rompimentos: um de magnitude 7,2 e outro de magnitude 7,5, separados por apenas 39 segundos e cerca de 5 quilômetros.

Dois golpes quase simultâneos

Os abalos atingiram o norte da Venezuela, região onde a placa tectônica do Caribe se move para leste em relação à placa Sul-Americana. Essa movimentação ocorre ao longo de diversas falhas geológicas, algumas delas já conhecidas por seu potencial destrutivo.

O resultado foi uma tragédia de grandes proporções: ao menos 900 pessoas morreram, milhares ficaram feridas e edifícios sofreram danos generalizados em diferentes pontos da região.

Para muitos, o terremoto chegou como uma catástrofe inesperada. Para Audemard, porém, o risco já vinha se acumulando silenciosamente havia mais de dois séculos.

O alerta já estava escrito nas falhas

Em um estudo publicado em 2017 na revista Tectonics, Audemard e outros pesquisadores analisaram a taxa de deslizamento da falha de Boconó, uma das estruturas geológicas da zona de contato entre as placas.

A conclusão era preocupante: a falha não rompia de forma significativa desde o terremoto de 1812, que atingiu Caracas com magnitude estimada em 7,1 e causou destruição histórica. Desde então, a tensão vinha se acumulando.

Esse acúmulo, conhecido como “déficit de deslizamento”, seria suficiente para gerar um terremoto entre magnitude 7 e 7,6. O desastre desta semana, segundo Audemard, pareceu confirmar o pior cenário.

“É como se fosse o irmão do terremoto de 1812”, afirmou o geólogo.

Uma região “atrasada” para romper

Machel Higgins, geofísico da Universidade Internacional da Flórida, também considera que a região estava “atrasada” para um grande terremoto. Ainda assim, ele reforça que terremotos não podem ser previstos com precisão.

Enquanto Audemard observava com preocupação a falha de Boconó, Higgins e sua equipe apontavam outro ponto crítico: a falha de San Sebastián, vizinha e parcialmente travada desde 1900.

Segundo os cálculos apresentados por sua equipe em uma conferência organizada pela Agência Espacial Europeia, a tensão acumulada nessa falha poderia produzir um terremoto de magnitude 7,1.

No entanto, imagens de radar recebidas após o desastre indicam que o rompimento pode ter ocorrido justamente na falha de San Sebastián — e com força ainda maior do que a estimada.

“Aconteceu”, disse Higgins, ao comentar as primeiras imagens de satélite.

O mistério dos 39 segundos

Terremotos duplos, conhecidos como doublets, não são raros. Em muitos casos, o primeiro rompimento altera o equilíbrio de tensão na crosta terrestre e pode disparar outro tremor em uma falha próxima.

O que impressiona os especialistas, porém, é o intervalo mínimo entre os dois abalos venezuelanos: menos de um minuto.

Germán Prieto, sismólogo da Universidade Nacional da Colômbia, afirma que esse curto espaço de tempo torna a análise extremamente complexa. Outros terremotos duplos famosos, como o de Kahramanmaraş, na Turquia, em 2023, ou o de Kagoshima, no Japão, em 1997, tiveram separações de horas ou dias.

Na Venezuela, os sinais se sobrepuseram quase como se a terra tivesse sido atingida por dois golpes consecutivos, dificultando a localização exata das rupturas.

Infraestrutura sísmica enfraquecida

A Venezuela já teve uma das redes de monitoramento sísmico mais avançadas e densas da região. Hoje, segundo Higgins, essa infraestrutura está fragmentada e, em alguns pontos, praticamente inexistente.

Por isso, Audemard tem acompanhado de perto os registros produzidos por instrumentos nos Estados Unidos e na Europa.

Ainda assim, com base na diferença entre as ondas que sentiu em Caracas, ele acredita que o segundo terremoto pode ter rompido muito mais perto da capital venezuelana do que foi inicialmente informado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Um desastre anunciado?

Embora especialistas reforcem que terremotos não podem ser previstos com precisão, os estudos sobre as falhas do norte da Venezuela já indicavam um risco importante.

O terremoto desta semana expôs, de forma dramática, o perigo acumulado ao longo de décadas em uma região marcada pelo encontro de placas tectônicas e por falhas capazes de provocar destruição em larga escala.

Para os cientistas, os próximos dias serão decisivos para entender exatamente quais segmentos romperam, como os dois abalos se conectaram e o que esse desastre revela sobre o futuro sísmico da Venezuela.

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